Tempo da Travessia

Há quem diga que o ano só começa depois do carnaval, então seguramente agora já estamos todos envolvidos com nossos planos, dúvidas e aspirações para esse 2019.  A economia parece dar sinais de melhora, mas a nebulosidade da crise ainda nos faz uma certa sombra, certo?  Além disso, estamos diante de uma avalanche de mudanças rápidas, diria até muito rápidas:  indústria 4.0, inteligência artificial, profissões antes clássicas agora ameaçadas de extinção, e, no Brasil, reforma trabalhista, reforma da previdência… Tudo isso, junto e misturado, pode gerar um efeito paralisante, exatamente nesse momento em que todos precisamos ser mais adaptáveis.

Adaptabilidade é uma palavra de ordem  

É preciso que nos adaptemos aos novos tempos, à realidade de um mundo cada vez mais robotizado e virtual, em que quase nada parece definitivo.  Se há trinta anos graduar-se numa determinada área era sinônimo de um amplo conhecimento nessa área, e, consequentemente, de segurança da permanência no mercado de trabalho, sabemos hoje que o que aprendemos num curso de graduação é um ponto de partida, não um porto seguro.  Mais que o aprendizado de conteúdos, hoje o mercado avalia competências – nosso conhecimento sim, mas também nossos comportamentos e habilidades atuais, quer seja como empregados formais, quer seja como empreendedores.

É preciso aprender a aprender…

Afinal de contas as recentes publicações na área de carreiras apontam que cada competência profissional terá uma vida útil de cerca de cinco anos, ou seja, no máximo a cada período de cinco anos teremos que nos atualizar, nos adaptar e, portanto, nunca estaremos totalmente prontos!  Nesse sentido é fundamental que a nossa experiência acadêmica seja marcante e significativa, que ela agregue efetivamente, que construa e amplie nossas competências, servindo como uma base (e quanto mais sólida, melhor). O ensino superior deve ser visto como uma etapa em que desenvolvemos exatamente essa capacidade de aprender a aprender.  Vez por outra nos deparamos por aí, nesse mundo sem dono das redes sociais, com anúncios de que num futuro próximo o diploma não será necessário e citam como exemplos empresas como Google e Facebook. Bom, o diploma como um mero documento, um papel, seguramente não terá (e na verdade já não tem) muito valor, mas já como aquele que representa toda uma formação e uma preparação profissional, seguirá sendo um diferencial importante. Para a grande maioria de nós, essa ainda será uma exigência.  O que nos compete é agregar valor a esse diploma, investindo na nossa formação, insisto, não apenas técnica, mas comportamental.

O profissional do futuro precisa ser multifacetado

Precisa lidar com desafios cada vez mais complexos, já que os mais simples, os de rotina, serão realizados por máquinas, robôs e inteligência artificial.  Então, toda oportunidade de crescimento, de aprendizado, deve ser buscada e aproveitada. Isso inclui os erros, errar é prerrogativa de quem tenta e pode ser uma oportunidade de reflexão e de aprendizagem significativa. Enfim é preciso estarmos abertos a nos reinventar, nos desafiar e nos capacitar continuamente.  Para terminar gostaria de deixar um trecho de um texto comumente atribuído a Fernando Pessoa, mas buscas rápidas na internet mostram uma série de questionamentos a esse respeito. Independentemente da autoria, o trecho vem bem a calhar: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”